No final da década de 60, o parto demorava, em média, menos duas horas do que atualmente. Não porque alguma coisa tenha mudado na gravidez desde então, mas sim porque a ciência estava menos presente na sala de partos, ou nos outros sítios em que, por força das circunstâncias, as mamãs eram obrigadas a dar à luz. Em 1969, a epidural não era sequer prática comum. Só por conta disso, o processo acabava por ser cerca de 90 minutos mais curto, mas também mais doloroso, devido a práticas como a episiotomia, que servia (e serve) para ampliar o canal do parto através de um corte cirúrgico.

Felizmina Rodrigues teve o primeiro filho em 1964. Dá "graças a Deus" por ter tido um parto "normal e natural", o que lhe permitiu voltar à apanha do tomate logo no décimo mês. Não teve acompanhamento médico nenhum e o único contacto que tinha com um especialista resumia-se a uma conversa casual que acontecia uma vez por mês, na Casa do Povo da aldeia onde vivia. O doutor perguntava-lhe como é que estava, sempre que se cruzavam e, por nunca ter tido qualquer complicação, respondia tranquila: "está tudo bem, doutor". Fora estes encontros fortuitos, Felizmina nunca visitou um consultório. Nunca foi ao hospital sem ser para ter o Sérgio e, mesmo no dia em que ele nasceu, a estadia não superou o par de horas.

A alentejana, que trabalhava no campo, não fez nenhuma pausa no trabalho durante oito meses. A barriga começou a tornar-se num estorvo ao nono mês de gestação e foi aí que se viu obrigada a ficar em casa. Nunca teve ninguém que a ensinasse a dar à luz. Ouviu os conselhos da mãe e da avó e diz não ter sentido a falta de mais nada.

O 10º mês foi repartido entre a casa e a plantação. Diz não ter tido qualquer problema na recuperação. Sentiu-se revigorada poucas semanas depois do parto e voltou a trabalhar. Amamentou durante um mês e deslocava-se propositadamente à casa, várias vezes por dia, para garantir que o filho tinha leite materno. Depois do 1º mês de vida, Felizmina ficou sem leite e o filho passou a beber leite de vaca, muitas vezes fresco, acabado de ordenhar. Aos seis meses, o bebé já comia sopas de pão. “É assim que ficamos rijos, no Alentejo”, diz.

"Para a gente descansar, íamos dar passeios no campo. Sentávamo-nos debaixo das árvores a comer fruta, a ouvir os passarinhos e a apanhar sol. Não tínhamos brinquedos. Fazíamos umas coisinhas com trapos de vez em quando”, recorda.

Sete anos mais tarde, em 1971, as coisas foram diferentes. Felizmina já vivia na cidade. Trabalhava como cozinheira na Fábrica da Pólvora, na Margem Sul do Tejo, e já foi possível ter acompanhamento médico durante a segunda gravidez. Foi a várias consultas durante os nove meses, mas não conseguiu chegar à maternidade no dia do parto. Para colocar o bebé no mundo, contou com a ajuda de uma amiga, parteira, que vivia na mesma praceta. Quando começou a sentir contrações mais fortes, a parteira não a deixou sair de casa. "Disse-me que não ia aguentar a viagem. Se me tivesse metido no carro, tinha tido a minha filha pelo caminho". Felizmente, correu tudo bem com o parto. A bebé saiu saudável e Felizmina não teve grandes complicações no pós-parto. Foi cosida em casa, sem anestesias, e ficou um mês de licença. Quando voltou ao trabalho, a filha ficou com uma tia. Usou fraldas de pano e bebia leite em pó. Desta vez, o trabalho não lhe permitiu deslocar-se para amamentar.

Quando fala destas experiências, Felizmina associa-as a um período tranquilo da sua vida. Fala de alegrias e da ausência de preocupações. Na altura, por falta de informação, não se preocupou com a maior parte das coisas que ocupam o pensamento das mamãs de hoje. No entanto, reconhece que as coisas podiam não ter corrido tão bem por isso mesmo.

Nas mais de cinco décadas que passaram desde o nascimento de Sérgio, o número de nascimentos caiu para menos de metade. Em Portugal, nos anos 60, registavam-se mais de 200 mil nascimentos por ano. Atualmente, esse número é inferior a metade. Desde 1982 que o número médio de filhos por mulher diminuiu para níveis abaixo daquele que é considerado o limite mínimo para a substituição de gerações. 12 anos mais tarde, o indicador ficou abaixo dos 1,5.

Em contraste com a história de Felizmina, hoje as mulheres têm o primeiro filho aos 30 anos, ao passo que em 1969 o número ficava-se pelos 24,5 anos. O registo continuou em ritmo decrescente até 1983, ano em que começou a subir, sem nunca mais ter parado.

É injusto traçar um cenário com base numa história singular, vivida por uma única mulher, no Alentejo, nas décadas de 60 e 70, quando a própria reconhece a sua sorte e a existência de situações completamente opostas, que foram acontecendo à sua volta. Facto é que os cuidados eram escassos, principalmente para as mamãs que faziam vida longe dos centros urbanos. Nestes casos, a sorte era uma força fundamental, da qual dependia a saúde da mamã e do bebé. A extensão da rede de cuidados de saúde reduziu os riscos inerentes à gravidez. O acesso à informação permite-lhes evitar situações de risco que, de outra maneira, podiam ser fatais, para si e para o bebé. Face àquilo que a maternidade reservava há 50 anos, apenas a estatística vale para nos ajudar a compreender a realidade de outras décadas.

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